terça-feira, 6 de outubro de 2009
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse
que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
com o tempo descobriu
que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto no final da frase.
Foi capaz de modificar a tarde
botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira
a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
E algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.(Manoel de Barros)
Quando li, achei maravilhoso! Super me identifiquei e resolvi dividir com vocês. :)
Ahh! Hoje eu quero dedicar o post à minha amiga Ana Carolina que tem dado muita força para a minha futura 'carreira de escritora'. Obrigada, flor. :*





"Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
E algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos" ,a melhor parte.
e não duvido que escreva melhor que o autor desse texto :D
assimetria
dos versos
:)